sexta-feira, 1 de abril de 2011

Madrugada em Ribeirinho

Desgraçado sem lembranças, faltam-lhe estórias, não guarda em memória o passado da infância. Apareceu do nada, em circunstâncias penosas, sem roupas, tampouco fraldas. Por sorte, a caridosa Dona Esmeralda, mesmo em condições financeiras zeradas, acolheu-o com amor e disse à população apavorada:
_ “Este é meu filho, se alguém o negar, jazem também me fazendo negada!”.
Noite nublada e fria nos gramados do lago, a lua sombria é largada de lado e, mesmo sem a atenção desejada, ilumina a triste sombra d’alma de Arthur. Ajoelhado, enterra seus dedos no barro e arranca as raízes das braquiárias. Retirando as famosas pragas que alimentam o gado, imagina as veias de teu coração, desejando não tê-lo.
Bradando invocado, arremessa a garrafa de cachaça comprada na quermesse do congado, e, num choro reprimido, exprime aos gritos constipados, o turbilhão emocional que em sua mente passa:
_Acreditar nesta traição amarga me engasga a garganta e me desgarra das belas lembranças passadas. Como pôde me deixar mal amado? Aquela desalmada armada de falas, por pouco arrancaria meu peito ferido com os verbos descarados.
_Quando mais nova, mergulhando neste mesmo lago, me encantava emergindo repentinamente das águas:
_ “Hei Arthur vem nadar comigo!” - eufórica ela dizia.
_Meus desejos repreendidos matavam-me aos poucos. Seus pequenos e perfeitos seios com os mamilos negros feitos por mãos santas, destacavam-se, pareciam perfurar a camiseta branca.
Gangorreando sobre os joelhos, Arthur vai se encolhendo cada vez mais:
_Não havia segredo, observando-a, e, ao mesmo tempo sonhando, me perdia na confusão do enlace, não sei se amava a linda ou se gostava do fato de sofrer pela falta que ela até hoje me traz.
As lágrimas escorrem no braço e ocupam os buracos feitos no barro. Imaginando conseguir dispersar a raiva, esmurra o chão continuamente e fica engasgado num choro contido:
_Vem a ter que eu a observava tanto. Seria inocência da Ninfa? Seria pureza nítida de caráter santo?
_A rígida força de atração queimava. Nas horas insanas, o de vulgo Satanás, senhor das profundidades em chamas, imperava me enganando, direcionava meus olhos humanos aos panos frontais das calcinhas largas, que, devido à época, eram altamente demandadas. Confesso que as peças íntimas bege, conservadoras e com moderadas rendas nas beiradas, me enlouqueciam, eu sempre as vislumbrava completamente molhadas, com isso, colavam na pele morena e contornavam a genitália farta. Quando o tom da calcinha coincidia com o de sua pele, parecia que Nicole estava nua e que seus pêlos pubianos não haviam crescido. Meu desejo aumentava, e, ao mesmo tempo, minha culpa proporcionalmente me engolia.
_A idade lhe era suficiente, já sangrava e provavelmente não se tratava de penugens nas suas partes íntimas.
_ Enfim, quando eu não mais resistia, pulava n’água e a carregava, astuto, escorregava minhas mãos por suas cochas e nádegas, no fim, em momento propício, tocava rapidamente seu órgão que pulsava em calor ardente. Afirmo sem engano e triste de saudades: Não existia algo mais atrativo que seus lindos e virgens lábios.
_Com imensa satisfação, mas agindo como algo banal, eu disfarçava minha intensa farsa pra não pegar tão mal, pois Carlos, meu irmão/amigo, desde a primeira vez, estava presente, alias, contente por sairmos nos três.


sexta-feira, 4 de março de 2011

Mendigando

De lata em lata. O alumínio que Dom Cantante cata vale mais emocionalmente do que contado em pratas, corre em sua mente euforia instantânea rara. Em vida perdida e ingrata, um simples descarte jogado na praça traz felicidade inexata.
Extravasando num grito avassalador, um berro desvairado e impertinente, emanando a metros o odor da podridão explícita dos dentes:
_TESOURO!
Se exausta e senta na calçada. Toma um gole da cachaça e no engasgo se espanta, junto ao refluxo gastroesofágico involuntário, repara pasmo um pouco de sangue no vômito da janta.
Cantante, o Dom desmemoriado, em desespero desdenhado, ao pessoal mais próximo diz:
 _ Algo errado comigo, você deve saber, é algo inflamado? Por favor, é dor!
Um patético senhor de terno, atrasado, trava o verbo e olha com desprezo pro Mendigo. Cantante imprimi riso falso, faz cara humilde e olha pro alto. Quer ser salvo sem ressalvo de repulsa.
 _ Tome um troco, que a cachaça você busque, só não puxe minha roupa, pois se amassa o terno ilustre, de minha pena que é pouca, eu viro um lobo louco, reduzindo-o em socos.
As moedas voam e as mãos de Dom se estendem, as dores novamente atacam e as mãos ao peito atendem, as pratas caem e saltam, os sentidos são perdidos em ato, o som das pratas pausam e o mundo funde ao fato ingrato.
Na terceira tosse decadente, deitado sobre suas excreções inflamadas e com a visão ligeiramente embaçada, ainda sim está ciente do inevitável, sente-o.
As pessoas em suma afastam, aflitos em nojo, viram os rostos e perguntam:
_Morreu? - Indagando o pressuposto.
Dos segundos, restam-lhe frações. Dom repara enamorando tudo, o vai e vem confuso das populações. Nota lucidez ausente em anos, lembra-se do passado escuro em chamas, escorrem-lhe lágrimas consentidas de danos, e um último nome, enfraquecido, aclama:
_Nicole...
A visão vai se fechando, o tempo anda cada vez mais lento e suas pálpebras vão pesando. Um pequeno filme em sua mente passa, fica clara a vida repleta de desgraças, agora a morte é fomentada de uma lembrança cotidiana da praça:
O sol avermelhado que sempre iluminava as tardes, fazia contraste no pessoal que passava, os casais românticos se abraçavam e as crianças gargalhavam algazarras.
Cumprindo o papel de indigente, Cantante encantado se perdia, imaginando participar da alegria que acontecia todo dia em sua frente.
Num olhar vazio e aparente, uma triste indagação se fazia:
_Porque privação em demasia? No âmago, sou gente!
Isso sino, toque o som, soe o hino fabuloso de Hebron. Consuma-o como faz aos tolos, estúpidos implorando seu consolo. Mal sabem que o sabor ludibriante longinquamente amável do batom, é apenas o cessar de um processo estafante, onde a temida Dona Morte, tem a tarefa desgastante de trazer porções de sorte como intimo garçom. Tens o fim, conforta-te.

A cena do crime

_Ramo duro arranha e atrapalha! Fora toda a tralha que um soldado porta!
Duas horas se passam e não cessa a chuva brava, branda a cada passo a precipitação nata. Nas trilhas tortas e lamacentas muitos lamentam a imberbe falta de senso e revoltados com a tensão que só aumenta, comentam:
_Busca estúpida por adrenalina e respeito, acabei encontrando hierarquia esdrúxula neste militarismo chulo e ainda tomo friagem nos peitos!
Bruto caminho que mata de cansaço os moços, no embaraço dos matos, ficam para trás aos poucos, não há quem disfarce, é simples observar o franzir das faces flácidas, a umidade ataca e não descarta sequer roupas de baixo, o suor desliza no rosto e a sensação de sal na boca arde a garganta com típico gosto.
Os últimos três encorajados mantêm posto, determinados e dispostos, persistem no trajeto certo, estão próximos.
_Pistas postas evidentes nunca falham, estamos pertos!
Visualizam de longe o objetivo: Um velho casebre em péssimo estado, tijolos manchados, teto apodrecido e lodo escorrido nos lados. 
Passo a passo aproximam-se.
O sargento que não conta com a sorte, nunca se importa em chutar a porta, como sempre, a mesma abre e entorta:
_Não mecha sequer um membro!
Há uma garota morta e um jovem tremendo, esse que branda como uma criança com medo:
_Não toquem nela e nem cheguem perto!
Em seus olhos é visto desespero desenfreado, parece inconsciente, inconseqüente, preocupado, previsível ao ponto de tentar algo alarmante. 
Sensitivo clima negro, os soldados ficam prontos para agirem em instantes.
O Infeliz avança nos moços armados, foi suficiente para o Cabo encorajado que tira a arma e atira em guarda, contra o ataque juvenil apavorado.
Silêncio, um minuto e nada, estão perplexos. 
Este se tornará famoso: “O caso da casa abandonada”.
O Soldado Renato tenta escrever o trágico fato no laudo policial de praxe:
_Não consigo, tenho estomago fraco, se entro ai de novo sujarei as provas de vômito fácil.
_Que soldado de rabo entre as pernas é você? Note o que faço e anote o que falo! Em posições como a nossa não se deve ter luxo de nojo, muito menos estomago fraco.
Com a caneta entre os dedos o soldado segue o enredo funesto, com atenção à voz do cabo, descrevendo caso macabro, escreve um longo laudo de mórbido contexto:
A garota encontra-se nos primeiros estágios de putrefação, indícios de tortura e espancamento indicam laminas, alicates e pinças no chão, o rosto indefinível e queimado isenta-se de couro cabeludo, seios arrancados a faca, torções de ferramentas em todo corpo desnudo, corte longitudinal em seu ventre, expondo o intestino seco e já com alguns vermes, esses que brotam também dos orifícios do corpo e de outros cortes induzidos...



quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Inversão

No passado, aos passos revoltosos,
O levantar da bandeira libertaria
Alimentava meu orgulho contrário.
Me opondo ao mundo e seus desgostosos
De opiniões explicitamente arbitrárias,
N'outra face da moeda, porém arbitrário.
Então, senti:

"Oh incrédulo errante,
Trata-se da mesma moeda!
Independente das faces.
Antes ser impensante,
Massificado como ameba,
Pois é tudo o mesmo enlace!

A inversão dos valores te ilude,
O que vem da carne é carne!
Reprodução e recriação animal.
Contravenção desta forma rude
Te faz objeto oculto, inerte,
E continuará propagando O Mal.

Tese, antitese e sintese
Não evolui tua moral.
Viva para o espírito e sinta
O engodo da evolução intelectual.

Não que deva abandonar o mundo,
Mas priorize encontrar glória.
Busque coisas de sentido profundo 
E mude sua história."






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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Despertar

Eis o florescer de minhas preces
Refutando as falácias ambiciosas almejadas.
Anseios e angústias transformadas
Em desejo vislumbrado que esclarece.

Ser um grande homem
É tornar-se o menor deles.
Deter sabedoria
É entender a sua falta.
Liderar com autoridade e eloquência
É ser liderado pelo Espírito Santo de Deus.

Quem diria?
...
Eu?



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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Interiorizando

Reescrevendo a alma.
Algo no âmago aclama,
Sorrateiramente acalma
E traz a tão clamada chama!


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