sexta-feira, 4 de março de 2011

Mendigando

De lata em lata. O alumínio que Dom Cantante cata vale mais emocionalmente do que contado em pratas, corre em sua mente euforia instantânea rara. Em vida perdida e ingrata, um simples descarte jogado na praça traz felicidade inexata.
Extravasando num grito avassalador, um berro desvairado e impertinente, emanando a metros o odor da podridão explícita dos dentes:
_TESOURO!
Se exausta e senta na calçada. Toma um gole da cachaça e no engasgo se espanta, junto ao refluxo gastroesofágico involuntário, repara pasmo um pouco de sangue no vômito da janta.
Cantante, o Dom desmemoriado, em desespero desdenhado, ao pessoal mais próximo diz:
 _ Algo errado comigo, você deve saber, é algo inflamado? Por favor, é dor!
Um patético senhor de terno, atrasado, trava o verbo e olha com desprezo pro Mendigo. Cantante imprimi riso falso, faz cara humilde e olha pro alto. Quer ser salvo sem ressalvo de repulsa.
 _ Tome um troco, que a cachaça você busque, só não puxe minha roupa, pois se amassa o terno ilustre, de minha pena que é pouca, eu viro um lobo louco, reduzindo-o em socos.
As moedas voam e as mãos de Dom se estendem, as dores novamente atacam e as mãos ao peito atendem, as pratas caem e saltam, os sentidos são perdidos em ato, o som das pratas pausam e o mundo funde ao fato ingrato.
Na terceira tosse decadente, deitado sobre suas excreções inflamadas e com a visão ligeiramente embaçada, ainda sim está ciente do inevitável, sente-o.
As pessoas em suma afastam, aflitos em nojo, viram os rostos e perguntam:
_Morreu? - Indagando o pressuposto.
Dos segundos, restam-lhe frações. Dom repara enamorando tudo, o vai e vem confuso das populações. Nota lucidez ausente em anos, lembra-se do passado escuro em chamas, escorrem-lhe lágrimas consentidas de danos, e um último nome, enfraquecido, aclama:
_Nicole...
A visão vai se fechando, o tempo anda cada vez mais lento e suas pálpebras vão pesando. Um pequeno filme em sua mente passa, fica clara a vida repleta de desgraças, agora a morte é fomentada de uma lembrança cotidiana da praça:
O sol avermelhado que sempre iluminava as tardes, fazia contraste no pessoal que passava, os casais românticos se abraçavam e as crianças gargalhavam algazarras.
Cumprindo o papel de indigente, Cantante encantado se perdia, imaginando participar da alegria que acontecia todo dia em sua frente.
Num olhar vazio e aparente, uma triste indagação se fazia:
_Porque privação em demasia? No âmago, sou gente!
Isso sino, toque o som, soe o hino fabuloso de Hebron. Consuma-o como faz aos tolos, estúpidos implorando seu consolo. Mal sabem que o sabor ludibriante longinquamente amável do batom, é apenas o cessar de um processo estafante, onde a temida Dona Morte, tem a tarefa desgastante de trazer porções de sorte como intimo garçom. Tens o fim, conforta-te.

2 comentários:

  1. Augusto,

    Benditos somos nós, "quixotescos" o suficiente para compreender e nos emocionar com essa história!
    Pra mim, isso é realidade existencial! Pura, crua!

    Mergulho nos teus escritos e quase me perco!

    Parabéns, meu querido amigo, pela tua ARTE!
    Acredito em ti!

    Abreijos!

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